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Meu Fusca     
Quando criança, o que eu mais gostava de fazer, era brincar de carrinho no quintal de casa. Eu, meu amigo Roberto e minha irmã Marilene fazíamos ruas na terra com pontes de madeira, morros, plantávamos pequenas árvores, construíamos casas com garagem para guardar nossos carros de plástico, lembro também que éramos representados pelos bonecos do “Forte Apache” que ganhei do meu avô de presente de Natal. Tempos bons aqueles. Nem minha mãe, nem meu pai se incomodavam, pois passávamos a manhã inteira e as vezes o dia inteiro brincando no quintal de casa.

Muito tempo depois, quando estava para completar 18 anos, novamente meu avô, me disse: “Meu neto, quando você completar 18 anos, vou te dar meu FUSCA de presente, mas só se você me prometer que vai ser meu motorista particular quando eu precisar...” Imaginem a minha alegria. Todos os sábados ia na casa do meu avô tirar o Fuscão 1500 ano 1971 que ele comprara “0” km, para dar aquele “trato”. Isso foi em 1981. Contava os dias e as horas para que pudesse tirar a carteira de motorista e curtir meu Fusca. Só prá você ter uma idéia, o Fuscão era azul diamante, todo original, com todos os frisos imagináveis num carro, barbatanas, porta trecos de bambú abaixo do painel e com apenas 36.000 km rodados. Uma jóia! Ele só saía com o carro se o tempo estivesse bom. Viajar, só prá Barra Velha onde tinha uma casa de praia, e quando chegava, já lavava o carro prá tirar o "salitre". A garagem tinha duas tábuas largas com 4 a 5 cm de espessura onde o carro ficava em cima. Brilhava mais que diamante.

E finalmente chegou o tão sonhado dia. Ganhei o carro e em seguida comecei a “depenar” o fusquinha. Coitado do meu avô! Três anos e meio depois vendi o Fusca, com: teto solar de lona, bancos reclináveis Procarro, som com equalizador, rodas aro 15 atrás e 14 na frente, rebaixei, coloquei piscas no pára-choque, maçanetas de alfa, escapamento direto, isso sem contar que bati o carro duas vezes, de leve, mas bati, etc, etc, etc... Hoje eu me pergunto, porque ele não me disse assim: “Meu neto, quando você completar 18 anos, vou te dar meu FUSCA de presente, mas só se você me prometer que vai deixá-lo como está, original”. Mas meu avô concordava com tudo que eu queria fazer, talvez porque eu era seu único neto.

Em dezembro de 1999, conheci um amigo, o sr. Eugênio Frederico Wegner Jr., que depois de eu ter contado esta história à ele, me convidou a participar de uma reunião do Veteran Car Club de Joinville e disse que estava indo ver um fusca que pertencia a uma amiga que pedira para avaliar seu carro. Era de noite, mas tudo bem, se é só para avaliar o carro dela, vamos lá! Quando chegamos, fomos muito bem recebidos pela sra. Jutta Hagemann, que com muita simpatia foi nos falando sobre seu fusca: “Meu pai comprou este carro em dezembro de 1969, colocou em meu nome e está comigo a pelos menos 22 anos. Tenho a Nota Fiscal original ainda guardada, a chave reserva e mais alguns chaveiros e manuais da época”. Quando ouvimos aquilo queríamos logo ver o carro. Descemos com o elevador e chegamos à garagem. MEU DEUS, que fusca! Não perdi tempo, fiz minha oferta, e ela me pediu um tempo para pensar, dizendo que tinha uns garotos que já estavam de olho no carro. “PELO AMOR DE DEUS dona Jutta, não venda prá esses garotos que eles vão logo “depenando” seu carro e amanhã a senhora não vai mais reconhecê-lo”. Na quinta-feira seguinte, ela me ligou e disse que o carro era meu, mas que eu só poderia buscá-lo no sábado. Foram os dois dias mais longos da minha vida.

Hoje, estou feliz com meu Fusca 1300 que vou um dia passar para meu filho que já sabe: só vai ganhar o carro se me prometer que vai conservá-lo original.

E qualquer dia desses ainda vou ter um FUSCÃO 1500 1971, igual o do meu avô.

Márcio Paul
alcance.joi@terra.com.br - Joinville/SC