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Minha adorável coleção - Jornal A Notícia     
Acesso a matéria no Jornal A Notícia

Pessoas como Gilmar Gonçalves têm fascínio pelo hábito de acumular determinados objetos, que reuniram ao longo dos anos

Roberta Benzati | roberta.benzati@an.com.br

 

— Tudo pode virar uma coleção —, afirma o professor de história e proprietário de um antiquário em Joinville Otto Francisco de Souza, enquanto mostra uma reportagem de uma revista de decoração na qual aparece, na sala de jantar de um casal, um inusitado conjunto de bonecos de biscuit para decorar bolos de casamentos enfileirado sobre uma estante. 

O hábito de coletar e acumular um determinado tipo de objeto é mais antigo do que se possa imaginar. No Império Romano, por exemplo, se tem registro de coleções de peças gregas. Esse costume, na opinião do professor, está relacionado ao encantamento do homem por objetos e começa como um hobby, uma maneira de preencher o tempo com algo agradável. 

— É quase um fetiche. Além disso, garante certo prestígio a quem coleciona —, diz.

No colecionismo, não é o valor material do objeto que importa, mas sim o fascínio que ele exerce sobre o colecionador, por isso, não é difícil encontrar coletâneas de discos, miniaturas, canecas, selos, ímãs de geladeira e mais uma infinidade de peças e artigos. 

De suntuosos carros antigos a centenas de bonecas, dados e frágeis trens em miniatura, as coleções dos joinvilenses vão do tradicional ao inusitado e surpreendem tanto quanto a paixão de seus donos. Eles não se dedicam apenas a pesquisar peças novas ou raras, eles estudam sobre tudo relacionado ao assunto e sabem de cor a história de cada item de suas coleções que, para eles, têm um valor inestimável.

Um breve passeio pelo local de trabalho de Gilmar Gonçalves é uma volta no tempo. Uma geladeira e um aspirador de pó dos anos 1950 aqui, um calibrador vermelho de 1940 e uma máquina de escrever ali são indícios de que o passado é valioso para ele. 

Esse fascínio pelo antigo se uniu a outra paixão do comerciante de 56 anos: os automóveis. O resultado é uma charmosa coleção de 12 carros fabricados entre as décadas de 1920 e 1980. 

— Sempre fui alucinado por carros, e os modelos antigos me chamam mais a atenção pela beleza, resistência e qualidade —, comenta o colecionador que aos nove anos dirigia um Mercury 1949  dos pais no interior de Minas Gerais, onde nasceu e cresceu, e aos 14 anos foi trabalhar em uma oficina mecânica para ficar mais perto dos veículos que tanto o encantavam.

Juntou as economias e aos 23 anos comprou o primeiro carro, um Fusca verde-claro de 1961. Em seguida, vieram uma Mercedes a diesel de 1966, depois um Morris Minor de 1951 e assim por diante. Os três foram prometidos para cada um dos filhos, por isso, ele adianta que são invendáveis, assim como o MP Lafer, carro igual ao da personagem Penélope Charmosa, comprado do irmão — também colecionador — para dar de presente à mulher. 

— Esses não vendo de jeito nenhum —, avisa.

O item mais antigo da coleção é um Ford de 1921, que comprou em 1999 em um ferro-velho do Exército Brasileiro, e um dos mais raros é um Simca Alvorada de 1963. Foram fabricados 270 carros no mundo e existem apenas dois no Brasil, um é o de Gilmar. 

Outra preciosidade é um DKW alemão de 1951, único no Brasil, mas o xodó é mesmo um Chevrolet Bel-Air de 1956, um clássico mundial dos anos embalados pelas músicas de Elvis Presley e ícone dos Estados Unidos naquela época. As placas pretas atestam a originalidade dos carros. 

— A originalidade e a raridade são os maiores atrativos para um colecionador —, explica.

Os automóveis estão guardados em diferentes locais e ficam devidamente cobertos com lona para que a umidade não danifique a lataria, mas engana-se quem pensa que eles só ficam expostos para serem apreciados pelo dono. 

Gilmar costuma passear pela cidade com seus carrões e, naturalmente, chama a atenção de quem passa pela rua. Até foi abordado algumas vezes para lhe fazerem um convite um tanto quanto inusitado: levar noivas para a igreja em um de seus veículos. 

O comerciante, que atualmente é presidente do Veteran Car Club, associação de colecionadores de carros usados de Joinville, e já foi eleito o 5º melhor motorista do Brasil em uma prova da revista 4 Rodas realizada em 1996, admite que é superprotetor com a coleção, sim. Se sai com um dos carros e pega uma chuva, volta rápido para casa e o enxuga com um pano para não ter risco de danificar a pintura. 

— Não deixo nenhum estranho colocar as mãos no meu carro, só os meus filhos —, frisa, mas ele garante estar bem menos possessivo do que antigamente. 

Em casa, Gilmar ainda mantém outra coleção, um pouco mais discreta: mais de 200 carrinhos que sequer saíram das embalagens, tudo guardado do mesmo jeito que foram comprados.

— Quando pega o vírus da ferrugem, não para mais de comprar —, brinca, sobre a paixão pelos carros antigos.


Gilmar, 56 anos, tem uma coleção de 12 carros fabricados entre 1920 e 1980 - Cleber Gomes / Agencia RBS

Gilmar, 56 anos, tem uma coleção de 12 carros fabricados entre 1920 e 1980
Foto:Cleber Gomes / Agencia RBS